Dançando, o boçal que de verás é, se distraí e mais um dia escapa aos cuidados, mas o que haveria de escapar, pois sendo boçal o bom moço, coitado, nada percebe. Ao ponto que sua sapatilha engraxada flutuava pelo salão, o gelo no copo derretia, não só o do copo, a festa esquentava, mas não só a festa.
Febril e desleixado, fim de festa, a festa dos boçais, voltou para sua incerta casa, com sentimentos de fartura, duas casas, dois portões, dois televisores, duas camas… Em dois minutos todos já dormia… A ressaca vazia do dia seguinte seria um tanto pior quanto a ressaca vadia de dez anos atrás. Vai faltar água e ele nem tomou o gelinho derretido do seu copo, vai ter sede, vai feder por mais tempo e tudo.
Boçal, como assim prefiro chamar (porque é), trabalhava em uma metalúrgica, gostava de futebol e mulher e não gostava, por comodismo, de discutir política, religião e coisas racionais demais pra ele. Nesse dia, a cabeça pesava duas toneladas, via no seu simplório meio televisor o noticiário da tarde. “Chuva no nordeste mata pelo menos 50 pessoas…”, troca de canal, “Amazonas em chamas, pulmão do mundo pede socor…”, troca de canal novamente, “ Sérgio Roberto, como pode fazer isso com Mar…”, novela não, trocou de canal, “Avião caí…”. Sem paciência para isso, desliga o televisor…
Burlou um dia de trabalho. Em casa diante do televisor outra vez, observa as mesmas notícias, no descaso que compete a sua bestialidade e/ou boçalidade cabível, desdenha as más notícias de que está feia a coisa pra nós cá da Terra. Ele não deve ter visto os 39° que faziam aquela tarde, o segundo dia sem água e o segundo sem banho.
Boçal, Boçal, que praga veio a ti para ser a praga que o mundo mais tem?
Desordenado pelo calor e sedento, vai pro bar beber cerveja, ver futebol e babar pelas mulheres vagantes pelo local. No bar do Zé o assunto não é outro, estamos no danando cada vez mais, o pessoal comentava que ta dando um furacão nos States de novo, que talvez até eles gostassem da idéia, por ser por lá, tinha uma nova queimada na Austrália, que nem se importavam, tava do outro lado do mundo, na Terra do Fogo, que tava ficando mais coerente com o nome que tem, ficou de verás coerente, mas a galera não ligava, porque curtia o calor mesmo e nem gostavam de argentinos. E Boçal não entendia, mas sabia que ia ser feio o temporal de hoje.
Na volta pra casa, o tempo se armou, correu, correu, mas pegou um pouco da chuva ventosa que começava… No conforto inestimado por ele, ouvia a chuva aumentar, mas foi dormir. Olha, era do tipo de música dele o que combinava com a situação, “… e se a casa cair, deixa que caia…”, não é que a casa caiu mesmo, chuva tanta e vento tal que… Caiu!
Embaixo de chuva e tijolos e cimento, ele esbravejava, solene e copioso, a sacanagem que a vida fez com ele, ainda por cima, melhor dizendo, por baixo, o carro novo dele, oito válvulas, o tal do gargantão, não passava de obra contemporânea impressionista de abstratismo natural.
Ouvia os comentários de amigos e ex-colegas de trabalho dizendo que o tempo ta louco, que isso é culpa da gente, que São Pedro ta de folga. Mas no televisor no bar noticiava a tempestade que ocorrerá ontem pela noite, deixou 200 desabrigados e nos culpava pelo fato. Boçal indignado dizia que não merecia aquilo, mas Boçal, de boçal que era relutou contra os 41° que faziam, saiu na rua e disse:
- Porque, hein? Por que é que a gente leva isso de troco se a gente sofre tanto pra conseguir tudo nessa vida? Por quê?
Nesse momento ele vê a última coisa que ele viu na vida dele, um rastro de fumaça preta saindo um gargantão igual ao dele, depois de rodopiar duas vezes entre a fumaça.
Boçal, Boçal, por que será que tua casa caiu e a do argentino queimou e a do Australiano queimou e a dos States caiu também? Que será hein, Boçal?
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